
O texto original é um sucesso. O filme marcou época e a vida de muitas pessoas. E a versão brasileira de “Ensina-me a Viver”, em cartaz até o próximo domingo (15/02) no Teatro do Leblon, tem dois ingredientes especiais: sonho e realização.
O história do jovem senhor Harold e da senhora jovem Maude prendeu a atenção do ator Arlindo Lopes ainda na adolescência e virou um sonho que ele realiza agora, revelando para a platéia carioca a poesia, não apenas da história, mas também a de um jovem ator que se entrega ao personagem em cada detalhe.
E haja detalhe em “Ensina-me a Viver”!
Desde o primeiro momento a montagem surpreende. O jogo de movimentos de telas de tecido na apresentação dos nomes dos atores / personagens, já demonstra que se trata de uma produção caprichada. Ainda na primeira cena, quando Harold é apresentado a platéia, Arlindo impressiona pelo trabalho corporal na primeira das muitas tentativas de morte – ou melhor, nas muitas farsas de morte.
Morte. Vida. Preto. Colorida. Silêncioso. Musical. Jovem. Velha. Harold e Maude são personagens distintos que se complementam e se encontram em enterros, espiando a morte. Harold (Arlindo Lopes) desejando-a em troca da atenção da autoritária e distante mãe, que não entende o comportamento do filho, mas tampouco lhe dá uma mínima atenção. No máximo, ela tenta se livrar do problema, tentando convencer o jovem a ingressar no exército ou casar. Maude (Gloria Menezes), uma jovem senhora de quase 80 anos, com dia e hora para partir, que gosta de ir a enterros para ‘ir se acostumando’, mas que também frequenta nascimentos. Uma senhora que encara a vida de forma leve e alegremente contagiante.
Uma alegria encarada como loucura pelo policial, pelo delegado e pelo padre, mas que revela como ser feliz depende única e exclusiva de nós mesmos, pois somos margaridas em campos. A princípio iguais, mas especialmente únicos. Glória Menezes encanta como Maude, seja na hora de explicar a Harold sobre as margaridas, quando pede para que ele cante, mesmo ele não sabendo – até o momento – cantar, ou, melhor ainda, quando ensina que nada – e eu faço aqui um adendo, nem ninguém - é dono das coisas. Nós apenas tomamos conta delas enquanto estamos por aqui. Simples, mas de uma poesia que no teatro faz com que a platéia não apenas escute e compreenda a afirmação, mas que sinta. E, muitas vezes, sentir vale mais do que qualquer explicação filosófica.
A cada enterro, encontro ou chá de alecrim, Harold e Maude se aproximam mais, as telas e o cenário (simples, com pequenos móveis de ferro, sendo mais caprichado na casa/ galpão / teatro de Maude, como não poderia deixar de ser) dançam em movimentos que se integram a história, se tornando mais um personagem do elenco. Essa aproximação desperta alegria e vontade de viver no jovem sombrio. Aos poucos, os terno pretos dão lugar a roupas claras. As visitas a enterros rendem ‘esticadas’ até um antigo teatro destivado que serve de moradia de Maude. As falsas tentativas de suicidio para chamar a atenção se transformam em artificios para desencorajar as pretendentes que a mãe de Harold arruma numa agência de matrimônio. Aliás, as tais pretendentes revelam a atriz Fernanda de Freitas. Uma jovem atriz que o grande público está acostumado a ver na TV e que em “Ensina-me a Viver” se mostra a vontade no palco, interpretando personalidades tão diferentes.
As pretendentes, o tio, o padre, o ‘altão’ e a mãe autoritária e festeira ajudam a compor um elenco de personagens leves e engraçados, que arrancam risadas da platéia em um espetáculo tão profundo e dramático quanto “Ensina-me a Viver”.
Arlindo e Glória dão vida a um casal improvável de forma tão envolvente e apaixonada que nos faz verdadeira a história de amor entre Harold e Maude. Aliás, mas que uma história de amor entre duas pessoas, “Ensina-me a Viver” é uma história de amor pela vida. Pelo detalhe do cotidiano. Uma lição de vida marcada por poucas, mas pontuais canções que despertam a emoção no momento exato. Destaque para Harold / Arlindo no desfecho da história, cantando emocionado e provando que vale a pena seguir em frente, mesmo que as coisas / pessoas / situações não sejam para sempre. A essência de cada um permanece em nós de diversas formas. Numa lembrança, fotografia ou canção.
“Ensina-me a Viver” é uma reflexão sobre a vida. Não diria uma lição, mas o (re)começo. De pensamentos, atitudes e ideias. Não é um espetáculo sobre a morte, mas sim sobre o nascimento, sobre a vida. O start para novas observações sobre a vida.
“Ensina-me a Viver” fica em cartaz no Rio de Janeiro apenas até o próximo final de semana (domingo, 15/02). De quinta a sábado, às 21h; domingos, às 20h. Teatro do Leblon – Sala Marília Pêra – Rua Conde de Bernadote, 26 – Leblon. Telefone: 2294-0347.////////
Vale a pena conferir!





